sábado, 10 de abril de 2010

Sobre Voar




O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte a respeito de voar:


Há toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar.
O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar.
Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente.
A primeira parte é fácil.

Ela requer apenas a habilidade de se jogar para a frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer. Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão. Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiverem praticando da forma correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força.

Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade. Um dos problemas é que você precisa errar o chão acidentalmente. Não adianta tentar errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre o quanto isso tudo irá doer se você deixar de errar.

É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular. Contudo, se você tiver a sorte de ficar completamente distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola.

Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração. Balance e flutue, flutue e balance. Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe-se flutuar mais alto.

Não ouça nada que possam dizer nesse momento porque dificilmente seria algo de útil. Provavelmente dirão algo como: "Meu Deus, você não pode estar voando!"
É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo. Flutue cada vez mais alto. Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois deixe-se levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.

NÃO ACENE PARA NINGUÉM.

Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir.


Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar seu vôo, sua velocidade, como manobrar, etc. O truque está sempre em não pensar muito a fundo naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça, como se fosse algo perfeitamente natural. Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, você irá se atrapalhar ― e se atrapalhar feio ― em sua primeira tentativa.


Há clubes privados de vôo aos quais você pode se juntar e que irão ajudá-lo a atingir esse momento fundamental de distração. Eles contratam pessoas com um físico inacreditável ― ou com opiniões inacreditáveis ―, e essas pessoas pulam de trás de arbustos para exibir seus corpos ― ou suas opiniões ― nos momentos cruciais. Poucos mochileiros de verdade terão dinheiro para se juntar a esses clubes, mas é possível conseguir um emprego temporário em um deles.




Admitidamente plagiado de um trecho do livro "A Vida, O Universo e Tudo O Mais", de Douglas Adams.




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

5 - O Vampiro

Ele começou a lamber o pescoço da donzela repetidas vezes, em movimentos que mais lembram pinceladas. A língua áspera e fria de gente morta causava uma sensação que lembrava, vagamente, a ternura de um felino. As mãos dele escorriam pelas madeixas ruivas dela, acariciando para acalmá-la.
Mas mesmo com toda essa preliminar relaxante, o que se seguiu foi horrível.
Presas afiadas rompendo os tecidos, afundando-se na carne alva, fazendo o sangue viscoso e morno espirrar no céu da boca do monstro. Chupadas vorazes tomavam goles e mais goles da vida da mocinha, e ela não podia fazer nada para pará-lo.
A sensação era de pleno desespero. Ela simplesmente não podia escapar daquele monstro. O monstro cuja sede era insaciável. Ela tentou debater o corpo, tornar-se a mais arisca das presas abatidas, tentando inutilmente demonstrar alguma resistência. Ele não precisava se esforçar para segurá-la. Nem tanto por sua força desumana, mas pela fraqueza dela que crescia a cada gole. A visão começou a turvar. Os sentidos começaram a falhar. Um inexplicável êxtase de relaxamento começou a tomar conta de sua consciência.

Ela estava chafurdando num delírio, e tornando-se aquilo que sempre odiou ser em toda sua vida: Uma vítima indefesa.
Inebriada pelo torpor, ela se apegou a qualquer memória, a qualquer sinal de consciência, a qualquer sensação de que sua mente estava viva e funcionando. E curiosamente, beirando o abismo eterno da morte, ela lembrou de um dia de sua infância.

O sol estava especialmente frio naquela manhã de inverno. Iluminava a praça verdejante, mas não esquentava nem incomodava. O parque estava vazio, os balanços que ela sempre quis estavam vazios. Todas as vezes que vinha brincar na praça, estavam ocupados. Tinha de brigar por aqueles balanços, mas naquele precioso instante, daquela preciosa manhã de inverno, estavam vazios.

E ela lembrou da sensação de voar, indo pra frente e pra trás, sozinha naquele balanço. Lembrar daquela sensação foi seu último pensamento antes de morrer completamente.


O monstro levantou, a bocarra cheia de presas gotejando os resquícios da vida dela. Largou o corpo sem vida dela com o mesmo descaso que uma pessoa tem ao jogar fora o embrulho de um lanche.
Gargalhou e desapareceu nas sombras. Tinha ainda muita sede.

sábado, 5 de dezembro de 2009

4 - O Soldado

Silêncio. Isso não é bom. Nada bom. Nem mesmo um único ruído. Nada dos aviões rugindo nos céus, nada do grito agudo das bombas cadentes, nada das explosões ressoantes, cujos estrondos meus ouvidos já estão acostumados.

Ainda silêncio. Fecho os olhos, cacoalho a cabeça. Ainda nenhum único ruído.

Nada de gritos.

Nada de tiroteiros, nada de tanques arrastando-se implacáveis sobre trincheiras cavadas às pressas, nada de gritos de desertores desesperados, nada.

Nada.


Puro e sublime silêncio.

Tive medo.

Não aquele medo suave, tranquilo, aquela expectativa pessimista que todo mundo está acostumado a sentir. Aquela sensação que você tinha quando temia não ter passado na prova, temia dizer a seu sogro que arranhou o carro na primeira vez que ele lhe deixou dar uma volta com a filha, temia quando roubava diante dos olhos de um vigilante, temia quando bandos de esquisitões perambulavam pela mesma rua que você quando está voltando pra casa tarde da noite... aquela sensação que você está encrencado ou em perigo. Essas sensações, por mais profundas, não chegavam nem perto do medo que eu estava sentindo.


Por que essas sensações ainda dão margem para o entendimento. Você tem uma vaga noção do que te espera. Mas o que eu sentia era o completo pavor. Eu não fazia ideia do que diabos estava acontecendo.

Eu estava horrorizado.

Recarreguei e disparei três tiros com minha Colt. Eu vi os buracos que fiz na parede, senti o cheiro de pólvora, senti o coice da arma, mas não ouvi nada. Naquele momento, eu tive certeza de que não era aquela arquetípica surdez temporária, que ataca quando ouvimos uma explosão muito forte. Dura segundos, aquilo estava durando tempo demais.


Preferia mil vezes ter perdido uma perna, ter tido um braço inutilizado, ou mesmo ter morrido. Mas agora estava surdo e não fazia idéia de como ia sobreviver no meio de um campo de guerra.

Agachei-me no canto do meu esconderijo, trêmulo, deixando minha Colt de lado. Procurei tirar meu elmo de kevlar e respirar um pouco. Estava perdendo as esperanças de servir a meu país.

Então peguei a minha Glock. Decidi que, se não prestava mais pra nada (afinal, quem precisa de um soldado surdo?) iria dar cabo de mim mesmo, em vez de dar esse gostinho aos malditos nazistas.

Dei por falta de meu coldre, e lembrei que havia jogado a arma fora quando fiquei sem munição, para não carregar peso a toa. Olhei onde estava. Antes de ser um lugar repleto de escombros, aquilo devia ter sido um bar... ou um quarto. Eu podia ver uma cama em bom estado, apesar do tijolo que apoiava um dos lados.

Ver a decadência que a guerra trazia me deu ânsias. Ver o quanto eu estava decadente quando meu país precisava de mim me deu desespero. Agoniado, me sentindo um completo inútil, comecei a bater a cabeça contra a parede, sem força suficiente pra me machucar realmente.

Muitas pessoas tem essa mania.

Foi quando eu estava contemplando o vazio, deprimido por minha inutilidade, quando vi Hitler em pessoa aparecer naquele quarto. Me sobressaltei, mas dois capitães da SS saíram não-sei-de-onde e me impediram de usar minha faca de batalha para desfigurar o rosto daquele crápula.

Ainda assim, me soltei de um deles e enfiei a faca no ombro do miserável. Quando fiz isso, eles usaram uma droga poderosa em mim e tudo que contemplei foram as trevas.

Depois acordei aqui, neste quarto de hospital. Querida, eu não sei por que eles me algemaram, querida. Não sei por que o Dr. Long insiste em me acusar de ter enfiado um lápis em seu ombro, quando eu fiz isso apenas com o maldito fuhrer alemão.

Não sei, querida, por que os enfermeiros que me deram aquele tal remédio (que eles chamam de anti-alucinógenos) são gêmeos idênticos dos capitães da SS que vi no dia anterior.

Eu não sei, querida, por que eu estava surdo antes, mas sei que não estou surdo agora.

Eu amo você. Por favor, fale comigo. Diga que não vai me deixar aqui. Diga que ainda me ama. Diga que vai me tirar deste lugar.


Por favor.

domingo, 29 de novembro de 2009

3 - Ponto de Ônibus

Estava frio. Estava escuro. Um breu tão pesado que os postes da rua só conseguiam criar cones de luz amarela isolados em meio a treva densa.


As calçadas que um dia foram brancas e lisas, eram agora cinzentas e repletas de falhas e rachaduras. Todo tipo de poluição visual impedia aquela rua de parecer bela. Pichações obscenas, panfletos políticos ultrapassados, convites de shows calejados, e na maioria das lanchonetes que infestavam aquela rua, anúncios de bebida com fotos de mulheres cujos corpos eram mais perfeitos do que a realidade permite.


A pintura irregular das paredes, a infestação de baratas que vez ou outra escorriam, furtivas, para onde havia sombra, os guinchos dos ratos no esgoto subterrâneo, o fedor das imundícies escorrendo pelo bueiro mal-tampado. Era uma cidade horrível, e eu estava feliz por aquela escuridão me impedir de vê-la mais nitidamente.
Olhei para cima e contemplei um céu desprovido de lua ou estrelas. Nuvens se acomodavam preguiçosamente, acumulando-se e hesitando em derramar sobre aquela cidade a sua chuva purificadora.


Esperei sozinho, durante trinta minutos, por uma condução que não apareceu antes da chuva torrencial começar. O cheiro da chuva anulava boa parte do fedor dos bueiros, o que tornava a espera mais agradável. Mas não muito.


O toldo amarelo e envelhecido onde resolvi me refugiar estava maltratado pelo tempo: goteiras conseguiram minar completamente o bem estar que o cheiro da chuva me trazia. Aquela cidade odiosa não me deixava manter meu bom humor nem por cinco minutos.


Estava pensando nisso quando a condução surgiu na esquina, me dando novo ânimo. A fome e o cansaço me atingiram abruptamente, e a saudade de casa foi ainda mais forte naqueles instantes que o ônibus levou para atravessar a distância que nos separava. Chacoalhei meu braço como um maluco, morrendo de medo de ser ignorado por um motorista tão cansado e apressado para ir pra casa quanto eu.


A minha felicidade pela chegada da condução não durou muito. Em sua parada, o maldito ônibus freou sobre uma poça de lama que havia se formado rapidamente com a torrencial chuva daquela noite de inverno. Encharcado de lama fétida até acima dos joelhos, eu entrei no ônibus com cara de poucos amigos.


E minha carranca – ou o meu fedor – mantiveram o assento ao lado do meu completamente vago, o que me dava merecido conforto. Embora eu tenha perdido o meu ponto pelo cochilo que se seguiu, eu pude enfim sorrir e suspirar uma frase que não costumo dizer:
— Enfim, paz.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Origem do Universo


Ruan voltou-se para Phil. Ainda não tinha conseguido fazer esse lugar entrar
direito na sua cabeça.
— Olha — disse —, se o Universo está para acabar... a gente não vai junto?
Phil dirigiu-lhe um olhar de três Dinamites Pangalácticas, ou, em outras palavras,
um olhar bastante incerto.
— Não — respondeu. — Olha — disse —, assim que você cai neste mergulho você
fica preso nessa coisa fantástica de campo de força temporal. Eu acho.
— Ah — disse Ruan. Voltou sua atenção para o prato de sopa que tinha
conseguido pedir ao garçom em troca do bife.
— Olha — disse Phil. — Vou te mostrar.
Pegou um guardanapo da mesa e começou a tentar fazer algo com ele, sem
esperanças.
— Olha — disse outra vez. — Imagine este guardanapo, certo, como sendo o
Universo temporal, certo? E esta colher como o módulo transduccional na curvatura da
matéria...
Levou um tempo para ele dizer esta última parte, e Ruan detestou ter que
interrompê-lo.
— Essa é a colher com que eu estava comendo — disse.


— Tá bom — disse Phil. — Imagine então esta colher... — encontrou uma colher
de madeira num pote de picles — esta colher... — mas achou que era bagunça demais pegar
aquela colher — não, melhor ainda, este garfo...
— Ei, quer largar meu garfo — disse Eduardo, asperamente.
— Tá bom — disse Phil —, tá bom, tá bom. Então vamos supor que este copo de
vinho é o Universo temporal...
— Qual? Esse que você acabou de derrubar no chão?
— Eu derrubei?
— Derrubou.
— Tá bom — disse Phil —, esquece. Quer dizer... quer dizer, olha, você sabe
realmente como o Universo começou?
— Provavelmente não — disse Ruan, que preferia nunca ter começado com isso.
— Tá bom — disse Phil —, imagine isso. Certo. Você tem uma banheira. Uma
banheira rosada bem grande. Feita de ébano.
— Feita onde? — disse Ruan. — A Casa Harrods foi destruída pelos vogons.
— Não importa.
— Então continua.
— Escuta.
— Tudo bem.
— Você tem essa banheira, certo? Imagine que você tem essa banheira. E é de
ébano. E é cônica.
— Cônica? — disse Ruan. — Que tipo de...
— Psiu — disse Phil. — É cônica. Então o que você faz, entende, você enche a
banheira de areia branca e fina, certo? Ou açúcar. Areia branca e fina e/ou açúcar. Tanto faz. Não importa. Pode ser açúcar. E quando estiver cheia, você destampa o ralo... tá ouvindo?
— Estou ouvindo.
— Você destampa o ralo, e tudo vai escorrendo num redemoinho, vai escorrendo,
entende, pelo ralo.
— Entendi.
— Você não entendeu. Você não entendeu nada. Eu ainda não cheguei na parte
importante. Quer ouvir a parte importante?
— Me conta a parte importante.
— Vou te contar a parte importante.
Phil pensou por um momento, tentando lembrar qual era a parte importante.
— A parte importante — disse — é essa. Você filma o que está acontecendo.
— Importante — concordou Ruan.
— Você pega uma câmera de filmar e filma o que está acontecendo.
— Importante.
— Essa não é a parte importante. A parte importante é essa, agora eu lembrei qual é
a parte importante. A parte importante é que depois você liga o projetor... de trás para frente!
— De trás para frente?
— É. Ligar o projetor de trás para frente é definitivamente a parte importante. E aí,
você senta e fica assistindo, e parece que está tudo subindo em espiral pelo ralo e enchendo
a banheira. Entendeu?
— E foi assim que o Universo começou? — disse Ruan.
— Não — disse Phil —, mas é um jeito maravilhoso de espairecer.
Procurou seu copo de vinho.
— Cadê meu copo de vinho? — perguntou.
— No chão.
— Ah.


"Adaptado" (na verdade, descaradamente plagiado) de um trecho do livro "O Restaurante do Fim do Universo", de Douglas Adams.